3. BRASIL 1.8.12

1. MENSALO - O LADO ESCURO
2. A VIDA DOS MENSALEIROS
3. DVIDAS ENTRE OS JUZES
4. GOD E SEUS DISCPULOS
5. DO PALCIO PARA A CADEIA
6. CANDIDATO ENROLADO
7. ERA MESMO UM BALCO

1. MENSALO - O LADO ESCURO
DESTEMIDO E REMIDO. FRIO, IMPIEDOSO E AGORA NO BANCO DOS RUS.

A enigmtica personalidade de Jos Dirceu, as incrveis histrias da sua vida e os trs destinos que o principal ru do mensalo traou para si para depois do julgamento que comea nesta semana.
OTVIO CABRAL

	Mesmo os aliados mais chegados concordam que Jos Dirceu tem um lado escuro, misterioso e inexplorado, como a Lua.  Um lado que desperta suspeita.  Em 1970, ele era o 13 elemento na Casa do Brasil em Havana, alojamento preparado por Fidel castro para receber e treinar guerrilheiros exilados ou fugitivos do Brasil.  Os outros doze desconfiavam que Dirceu fosse agente de Fidel infiltrado entre eles.  S ocasionalmente ele dormia na Casa do Brasil.  Dormia mal. A suspeita foi ganhando corpo.  Em um exerccio noturno de sobrevivncia no mar, alguns camaradas tentaram afoga-lo.  Pelo menos  dessa maneira que Jos Dirceu se recorda do incidente ocorrido noite alta nas clidas guas do Mar do Caribe. Dirceu parece sentir-se confortvel nesse papel de elemento estranho ao meio, desde que poderoso e temido.  Ele se recorda com humor do dia em que o mundo ficou pequeno demais para ele.  No auge da desconfiana dos camaradas brasileiros em Havana, Fidel decidiu tir-lo da frigideira e deu-lhe uma misso internacional.  Deveria ir a Moscou.  Mal desceu do Tupolev da Aeroflot que o trazia de Paris, foi detido pelos soviticos.  Dirceu ainda avaliava suas, poucas, opes naquele momento, quando foi desfeito o equvoco e ele pde continuar a misso dada por Fidel Castro.
	Dos seus 66 anos de vida, ele passou um na cadeia, dez na clandestinidade e os ltimos sete com seus direitos polticos suspensos.  Sempre alterna momentos de glria com outros, obscuros.  A primeira vez foi quando se viu obrigado a trocar o status de pop star da esquerda, que desfrutava nos anos 60 na qualidade de presidente da UNE, pelo misterioso exlio em Cuba.  Mais recentemente, teve de deixar o posto de ministro mais poderoso do governo Lula para encarnar um consultor envolvido em vultuosos e sigilosos contratos de empresas privadas com rgos do governo.  Agora, na condio de ru e principal personagem-smbolo do maior escndalo de corrupo da histria do pas, Jos Dirceu estar ao mesmo tempo sob os holofotes e tentando esconder deles seu lado escuro.  A partir das 2 da tarde desta quinta-feira, o ex-ministro da Casa Civil de Lula mais 37 acusados de participar do mensalo, o esquema de desvio de dinheiro pblico para lavar sobras de caixa de campanha e, de quebra, comprar apoio no Congresso, comearo ser julgados pelo Supremo tribunal Federal.  Dirceu  o personagem central do processo.  Ao seu destino, esto amarrados a sorte dos demais mensaleiros, o futuro do PT e a imagem com que o governo Lula entrar para a histria.  O veredicto sobre o homem apontado pelo Ministrio Pblico como o chefe da quadrilha do mensalo fechar uma triste pgina da histria do Brasil.
	Dirceu traou trs possveis cenrios alternativos para o futuro.  Absolvido, vai entrar no Congresso com um pedido de anistia para retomar a vida poltica.  Quer recuperar o comando do PT e voltar a disputar eleies.  No lhe agrada a possibilidade de se candidatar a deputado, mas ele sabe que sua enorme rejeio o impediria de vencer eleies majoritrias em So Paulo, onde construiu sua carreira poltica  mas onde, por meio de vaias, s vai a restaurantes vazios e decadentes. Tem muito de autocomiserao nisso.  Dirceu  sempre visto em restaurantes paulistanos cinco-estrelas. Por exemplo, em um tradicionalssimo portugus dos Jardins. Recentemente, ouviu de Lula a sugesto de transferir seu domiclio eleitoral para o Distrito Federal e disputar por l o cargo de governador ou senador. Gostou muito. Governador do Distrito Federal d mais relevncia do que deputado federal por So Paulo.
     O plano B leva em conta o que , para ele, o pior cenrio: a condenao com pena alta  e cadeia. Nesse caso, Dirceu j definiu o seu projeto: vai virar mrtir. Desmontar sua consultoria e voltar para os braos do PT mais radical. Cogita at mesmo denunciar o estado brasileiro a cortes internacionais de direitos humanos. O pavor da priso fez com que, h dois meses, ele chegasse a pensar em fugir do Brasil. Para quem j viveu o que eu vivi, sair daqui clandestino de novo no custa nada, disse, em um jantar na casa do advogado Ernesto Tzirulnik, em So Paulo, na presena de uma dezena de convidados, entre eles o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo.
     A alternativa que seus auxiliares consideram mais provvel, porm,  a condenao a uma pena branda ou que j prescreveu, o que o livraria de ir para um presdio. Nesse caso, entraria em cena o plano C, que consiste em ganhar muito dinheiro. O Z vai compensar nos negcios a frustrao pelo fim da carreira poltica, diz um interlocutor. Assim que foi cassado, Dirceu tentou ganhar a vida com palestras, mas a repercusso do escndalo fez a ideia fracassar. O banco Santander cancelou uma palestra dele assim que ela foi divulgada na imprensa. Agora, Dirceu dedica-se, por exemplo, a ajudar empresas brasileiras, principalmente empreiteiras, a abrir negcios em pases em que ele tem contatos polticos. O petista tem atuado em trs frentes. A primeira  Cuba. Quando a ilha dos irmos Castro abrir seu mercado, os amigos do rei se daro bem. Dirceu  ntimo de Raul. Outra rea de ao do petista  o mercado de 100 milhes de consumidores formado por Peru, Colmbia e Venezuela. Dirceu tem livre trnsito junto ao tiranete venezuelano Hugo Chvez e ao peruano Ollanta Humala, hoje assessorado por Luis Favre, ex-marido de Marta Suplicy. Comeou tambm a circular pelo governo colombiano e, recentemente, prospectou a Frana. Em julho, quando esteve em Paris, foi apresentado por Favre ao presidente socialista Franois Hollande.
     De tudo o que se diz sobre Jos Dirceu, nada  to incontestvel quanto um trao de seu carter. Dirceu tem nervos de ao. A decantada frieza do chefe da quadrilha  real. Dirceu se fortalece e foca melhor a mente em momentos de crise. Um hesitante no conseguiria suportar a desconfiana dos prprios camaradas exilados em Havana  para onde foram, com escala no Mxico, depois de ser soltos da priso em troca da vida do sequestrado embaixador americano Charles Elbrick. Na volta ao Brasil, 25 dos 28 integrantes ex-exilados do grupo do Movimento de Libertao Popular (Molipo), organizao terrorista a que Dirceu pertencia, foram mortos ou presos. Dirceu escapou. Sua sorte levantou mais suspeitas. Dessa vez, muita gente de esquerda jurava que Dirceu era mesmo agente da ditadura brasileira. Nada disso foi provado. Mas o sangue-frio lhe permitiu viver por quatro anos na pele do fictcio investidor em gado Carlos Henrique Gouveia, personagem que encarnou, no interior do Paran, at 1979. Nesse ano, depois de ler no jornal sobre a Lei da Anistia, ele chamou a ento mulher, Clara Becker, com quem teve um filho, para lhe revelar que havia mentido durante todo esse tempo  que era na verdade um agente da esquerda procurado pela ditadura e que seu nome, sua histria e at seu nariz eram falsos (a cirurgia feita em Cuba para lhe conferir um nariz adunco foi revertida logo depois  hoje, at onde se sabe, de artificial sobraram apenas os cabelos implantados). Dirceu separou-se de Clara no mesmo ano, veio para So Paulo e ajudou a fundar o PT, no qual desenvolveu com Lula uma relao siamesa  e tensa tambm. Embora at hoje se falem todos os dias, ambos concordam que no so amigos  O Z no  amigo de ningum, diz Lula. No PT, Dirceu dedicou-se com a caracterstica impiedade  tarefa de passar o rolo compressor sobre as tendncias mais radicais da sigla. O trabalho foi crucial para alar Lula  Presidncia da Repblica.
     Hoje, Jos Dirceu de Oliveira e Silva  um homem rico. E frustrado. Sabe que, condenado ou absolvido no julgamento do mensalo, est fadado a enterrar o seu grande sonho, o de um dia presidir o Brasil. H pouco, em um encontro com petistas, disse: O Lindbergh Farias, se for eleito governador do Rio em 2014, entra na fila para a Presidncia. O Fernando Haddad, ganhando a prefeitura de So Paulo, tambm. Eu estava na frente dessa fila, mas o mensalo me tirou de l. E eu sei que nunca mais vou conseguir voltar. A Justia dir se o futuro de Dirceu incluir novos dias claros ou se ele est destinado a mergulhar mais uma vez nas sombras.

O QUE FOI O MENSALO
Os fatos do maior escndalo do governo Luta e as tentativas de neg-los

O INCIO  2005

14/MAI - VEJA revelou o esquema de corrupo nos Correios. O chefe de departamento Maurcio Marinho disse que agia em nome do PTB e de Roberto Jefferson, presidente do partido. Pode-se roubar tudo nos Correios. Ele. (Jefferson) me d cobertura, fala comigo, no manda recado.
6/JUN  O ESCNDALO - Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Jefferson denunciou a existncia de pagamentos mensais de 30.000 reais a deputados da base aliada do governo. Ele acusou Delbio Soares, tesoureiro do PT, de ser o principal operador. Disse tambm ter alertado Lula.
12/JUN - Jefferson disse que o dinheiro do mensalo era fornecido por estatais e empresas privadas que tinham negcios com o governo. As negociaes ocorriam em sala ao lado do gabinete de Jos Dirceu, ministro da Casa Civil. O nome do publicitrio mineiro Marcos Valrio apareceu pela primeira vez.
14/JUN - Em histrica sesso do Conselho de tica da Cmara, Jefferson confirmou todas as denncias, assumiu ter recebido 4 milhes de reais em caixa dois e apontou Dirceu como comandante do mensalo. Dirceu, se voc no sair da rpido, vai fazer ru um homem inocente, que  o presidente Lula. Sai da, Z, sai da rpido. 
16/JUN - Jos Dirceu caiu e reassumiu a cadeira de deputado federal. Disse que deixava o (Palcio do) Planalto para se defender na plancie.
1/JUL - Entre agosto e outubro de 2003, Marcos Valrio sacou 6,4 milhes nos bancos Rural e do Brasil. As datas dos saques coincidiam com os anncios de adeso de deputados ao PL (hoje PR), PTB, PT e PP.
2/JUL - VEJA revelou que Marcos Valrio foi avalista, junto com Delbio e Jos Genoino, de um emprstimo ao PT de 2,4 milhes de reais. Genoino, ento presidente do PT, negou. Desmentido por documentos com sua assinatura, disse que assinou sem ler.
9/JUL - Jos Genoino e Marcelo Sereno, secretrio de Comunicao do PT e brao direito de Dirceu, foram afastados de seus cargos no partido.
15/JUL  A OPERAO ABAFA - Mrcio Thomaz Bastos, ento ministro da Justia, traou a linha de defesa com a tese de que houve delitos eleitorais e no corrupo. Em entrevista ao Jornal Nacional, Marcos Valrio admitiu os emprstimos ao PT e disse que o dinheiro era para pagar despesas de campanha.
16/JUL - Delbio Soares assumiu a existncia de caixa dois no PT e apresentou-se como o nico responsvel pelas irregularidades.
17/JUL - Em entrevista a uma jornalista brasileira na Frana, Lula tentou defender o PT afirmando que o partido no fez nada alm do que  feito sistematicamente no Brasil, mas ao dizer isso admitiu o uso de dinheiro de caixa dois na campanha eleitoral.
1/A|GO - O presidente do PL, Valdemar Costa Neto (SP), renunciou ao mandato de deputado depois de admitir que recebeu dinheiro do PT  segundo ele, para pagar dvidas de campanha.
5/AGO - Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Marcos Valrio confirmou o mensalo: Alm do Dirceu, toda a cpula do PT sabia. E ameaou de novo: Vou contar tudo o que sei, mas no de uma vez. Vou contar devagarinho e vou fazer um estrago, um barulho.
11/AGO  O AUGE - No ponto mais agudo da crise, Duda Mendona, marqueteiro da campanha de Lula, contou  CPI dos Correios que recebeu 10,5 milhes de reais do PT via caixa dois, no exterior, confessando crimes de lavagem de dinheiro e evaso de divisas. A possibilidade de Lula no terminar o mandato foi aventada pela primeira vez.
12/AGO - Lula se penitenciou publicamente em rede nacional de televiso: No tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que ns temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas.
14/SET - A Cmara aprovou a cassao de Jefferson por quebra de decoro. No fim de seu discurso de defesa, ele bradou: Tirei a roupa do rei. Mostrei ao Brasil quem so esses fariseus.
17/OUT - Em seu stio em Gois, Delbio falou sobre as denncias: Sero esclarecidas, esquecidas, e acabaro virando piada de salo.
1/DEZ - A Cmara aprovou a cassao de Jos Dirceu.

COM REPORTAGEM DE LEONARDO COUTINHO, GABRIELE JIMENEZ, CAROLINA RANGEL, JULIA CARVALHO, KALLEO COURA, ANDR ELER, MARCELO SPERANDIO, ADRIANO CEOLIN, HUGO MARQUES, RAFAEL FOLTRAM, VICTOR CAPUTO


2. A VIDA DOS MENSALEIROS
Sete anos depois, os protagonistas seguiram caminhos distintos, mas sempre confortveis: uns mantiveram a influncia poltica, outros conquistaram sucesso empresarial.

DELBIO SOARES
Bode expiatrio e resignado no processo do mensalo, o ex-tesoureiro do PT  apontado pelo Ministrio Pblico como membro do estado-maior do esquema. Sobre seus ombros, Jos Dirceu, a quem ele era (e de certa forma continua) subordinado, jogou a responsabilidade pelos pagamentos aos polticos. Delbio no disse no. Ele  daqueles militantes que consideram que tudo o que o PT fez. incluindo as prticas nada republicanas,  parte de um projeto, o nosso projeto, como costuma repetir. O sucesso do nosso projeto moldou os hbitos simplrios do tesoureiro, que, poderoso e respeitado no governo Lula, passou a usar roupas de grife, degustar vinhos premiados e fumar charutos cubanos  numa rotina incompatvel com o salrio de professor que recebia do governo de Gois. Antes do escndalo, Delbio foi pilhado comprando terras em Gois com notas de reais acomodadas em sacos de pano. Expulso do PT aps o mensalo, continuou viajando pelo pas, dessa vez com passagens custeadas por uma obscura ONG ligada a petistas. Para aplacar as suspeitas sobre a origem do dinheiro usado para bancar suas despesas, Delbio fundou uma empresa de propaganda na internet. Num site mal-ajambrado, oferece imveis para venda e aluguel. Readmitido nos quadros do PT no ano passado, ele mora em So Paulo com a mulher, num confortvel apartamento de trs quartos comprado em 2005 por 190.000 reais  pagos em dinheiro com notas de reais, dlares e euros levadas ao cartrio por sua sogra. Se absolvido, ele j anunciou seu projeto imediato: disputar uma cadeira no Congresso Nacional em 2014.

MARCOS VALRIO
H sete anos o publicitrio administra o que restou de seu patrimnio: segredos valiosos que ele diz deter sobre o mensalo. Marcos Valrio era dono de duas agncias de publicidade que tinham contratos milionrios com o governo petista  e que quase nunca resultavam na correspondente prestao de servios, j que o grosso do pagamento ia para o caixa do mensalo. Foi operando essa engrenagem que ele ganhou prestgio e muito dinheiro. Descoberta a fraude, caiu em desgraa. Hoje, porm,  um consultor de sucesso. Costuma dizer que, dada a relao com o PT,  atendido em seus pleitos junto a rgos do governo, bancos pblicos e estatais  e cobra caro, e em dinheiro vivo, pela intermediao. A vida pessoal segue atribulada. Sua mulher, Renilda Santiago, tem crises emocionais frequentes por medo de que o marido volte para a cadeia. O prprio Valrio, vez ou outra, se diz acometido por algum mal. Tempos atrs, disse a um interlocutor de Braslia que estava com cncer no crebro. A desconfiana de que era mais um recado aos petistas veio com o que ele disse em seguida: que, como estava com os dias contados, no tinha o que perder e estava pensando em contar o que ainda no havia contado  polcia. O veredicto do STF pode definir os rumos dessa chantagem sem fim.

DUDA MENDONA
No seu tempo de marqueteiro mais famoso do Brasil, ele ajudou a eleger de Paulo Maluf a Luiz Incio Lula da Silva. Com o escndalo, afastou-se dos holofotes, mas nunca ficou longe do poder. Embora no tenha feito campanhas em 2006, Duda Mendona manteve polpudos contratos com o governo federal, que lhe renderam 102 milhes de reais at 2011. Na ltima eleio, mergulhou de novo no ramo que o tornou famoso e ajudou a eleger de petistas, como a agora senadora Marta Suplicy, a tucanos, como Cssio Cunha Lima. Neste ano, voltar a  oferecer seus prstimos a candidatos Brasil afora. A bonana financeira ajudou a alimentar o estilo espalhafatoso. No incio deste ano, decidiu adotar um braso para a famlia  um c-cedilha com um crculo em volta, que tatuou no ombro e que adorna a pele de quatro de seus sete filhos e tambm seu helicptero e seu avio. Tentar, agora, livrar-se de outra marca: a acusao por ter recebido 10,5 milhes de reais no exterior, crime por ele admitido em cadeia nacional.

LUIZ GUSHIKEN
Sem cargo no governo ou no PT desde 2006, o China, como era conhecido, abriu uma consultoria em 2007, cinco meses depois de deixar o Palcio do Planalto, onde era assessor especial. Na sua lista de clientes j estiveram, entre outros, a Vale e o Banco PanAmericano  que, logo depois dos servios do petista, foi salvo pela Caixa Econmica Federal com uma injeo de 740 milhes de reais. Em tratamento contra um cncer, ele passa a maior parte do tempo em sua chcara de 5000 metros quadrados em Indaiatuba, no interior paulista, de onde s sai para ir a So Paulo a cada quinze dias, para a quimioterapia. Gushiken  um dos poucos que nada tm a temer com o julgamento. Seu nome foi includo porque um ex-diretor do Banco do Brasil o acusou de participar de desvio de recursos para o mensalo. Mas a Procuradoria-Geral da Repblica no viu indcios suficientes e pediu sua absolvio.

JOO PAULO CUNHA
O mensalo encolheu as ambies do deputado federal. Estrela em ascenso, era o nome do PT para o governo de So Paulo em 2006. Hoje, seu grande desafio  eleger-se prefeito de Osasco (SP), cidade onde trabalhou como metalrgico, estreou no movimento sindical e construiu sua base eleitoral. O caso de Joo Paulo Cunha acabou se transformando num dos mais emblemticos do mensalo pela estrondosa materialidade dos rastros que deixou. Na lista de clientes de Marcos Valrio, achou-se o nome da mulher do deputado. Ela esteve trs vezes na agncia que fazia os pagamentos do mensalo. Questionado, o deputado mentiu: disse que a mulher fora pagar uma conta de TV a cabo. A quebra do sigilo revelou que ela havia sacado 50.000 reais da conta abastecida pelo valerioduto.

JOS GENOINO
Figura ruidosa no Congresso e onipresente nos jornais antes do mensalo, Jos Genoino  que, como presidente do PT, avalizou emprstimos milionrios, depois apontados como fictcios  foi um dos que mais sentiram os efeitos da hecatombe. Nos meses seguintes ao estouro do escndalo, trancafiou-se em casa e entrou em depresso. Mesmo amigos s se comunicavam com ele por e-mail. Ainda conseguiu eleger-se deputado em 2006, mas o protagonismo se esvaiu. Quatro anos depois, no obteve os votos para reeleger-se e amargou uma suplncia. Espera voltar  Cmara se for absolvido. Enquanto isso, o ex-guerrilheiro, um dos poucos sobreviventes do Araguaia, trabalha como assessor do Ministrio da Defesa  que chegou a lhe dar a Medalha da Vitria, concedida a quem prestou servios relevantes ao pas.

ROBERTO JEFFERSON
O mais teatral dos protagonistas do escndalo, o ex-deputado federal que escancarou e batizou o mensalo foi cassado por quebra de decoro, mas continua a fazer poltica no posto de presidente do PTB. Mantenho minha influncia. Sou ouvido, disse a VEJA. Ensaiou uma volta  advocacia e eventualmente presta consultoria jurdica a amigos, mas a dedicao maior   articulao nos bastidores. Inelegvel at 2015, planeja, se absolvido, voltar  ribalta na Cmara na primeira eleio possvel, em 2018. Se for, condenado da acusao de receber propina para manter o PTB na base de governo, j avisou sua turma: deixa a presidncia do partido e, talvez, a poltica. No sbado 28, estava marcada uma operao para remover um tumor no pncreas e ele ter de reverter a cirurgia baritrica a que se submeteu em 1999. Diz que a chance de cura chega a 70%. Est confiante em que, mais para a frente, haver duas vitrias para comemorar.

VALDEMAR COSTA NETO
O mensalo existiu e o Valdemar recebeu, vociferou numa sesso da CPI, em 2005, a socialite Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher do deputado e hoje promovida a sua inimiga figadal. Acusado de receber propina em troca de apoio poltico e de montar uma quadrilha para lavar o dinheiro, Valdemar Costa Neto continua onde sempre esteve e fazendo o que sempre fez  no Congresso, dirigindo o PR e tendo ideias vantajosas para ele e seu partido e ruinosas para o resto do Brasil. Foi do deputado a estratgia de lanar Tiririca como atrao eleitoral do PR  o palhao recebeu mais de 1,3 milho de votos para a Cmara em 2010 e ainda arrastou junto polticos da categoria do ex-delegado Protgenes Queiroz.

A SITUAO DOS ENVOLVIDOS
Confira, ao longo das prximas pginas, o que faziam na poca e do que se ocupam hoje todos os personagens que tiveram a denncia aceita pelo Supremo Tribunal Federal, e qual o seu papel no esquema, de acordo com a Procuradoria-Geral da Repblica.

CARLOS ALBERTO QUAGLIA
O QUE FAZIA: Dono da Natimar 
O QUE FAZ HOJE: Escritor 
ACUSAO: A Natimar integrou a quadrilha que lavava a propina do valerioduto em favor da cpula do PP

ANDERSON ADAUTO
QUE FAZIA: Ministro dos Transportes de Lula at 2004
QUE FAZ HOJE: Prefeito reeleito de Uberaba (MG) 
ACUSAO: Recebeu 950.000 reais de Valrio e intermediou compra de apoio poltico

ANITA LEOCDIA 
O QUE FAZIA: Assessora do deputado Paulo Rocha (PT-PA) 
O QUE FAZ HOJE: Assessora do diretrio nacional do PT 
ACUSAO: Recebeu 620.000 reais do esquema em nome do deputado federal petista

ANTONIO LAMAS 
O QUE FAZIA: Assessor da liderana do PL na Cmara 
O QUE FAZ HOJE: Trabalha como gerente em uma casa lotrica 
ACUSACO: Intermediou repasses ao PL e integrou o grupo de Valdemar Costa Neto

AYANNA TENRIO 
O QUE FAZIA: Executiva do Banco Rural
O QUE FAZ HOJE: Consultora 
ACUSAO: Liberou emprstimos fraudulentos para as empresas de Marcos Valrio, abastecendo o esquema

BRENO FISCHBERG
O QUE FAZIA: Scio da corretora Bonus-Banval 
O QUE FAZ HOJE: Empresrio 
ACUSAO: A Bonus-Banval fez a intermediao dos repasses ao PP, lavando o dinheiro e ocultando a sua origem

BISPO RODRIGUES
O QUE FAZIA: Deputado (PL-RJ) e vice-presidente do partido 
O QUE FAZ HOJE: Scio de emissoras de rdio e televiso 
ACUSAO: Recebeu propina para votar a favor do governo

CRISTIANO PAZ 
O QUE FAZIA: Empresrio 
O QUE FAZ HOJE: Empresrio 
ACUSAO: Scio de Marcos Valrio, ajudou a montar a estrutura que servia para mascarar o pagamento a deputados

EMERSON PALMIERI 
O QUE FAZIA: Tesoureiro informal do PTB e diretor da Embratur
O QUE FAZ HOJE: Fazendeiro 
ACUSAO: Ajudou a intermediar o pagamento da propina em favor do PTB

ENIVALDO QUADRADO 
O QUE FAZIA: Diretor da corretora Bonus-Banval 
O QUE FAZ HOJE: Empresrio 
ACUSACO: A Bonus-Banval fez a intermediao dos repasses ao PP, lavando o dinheiro e ocultando a sua origem

GEIZA DIAS 
O QUE FAZIA: Gerente financeira da SMP&B 
O QUE FAZ HOJE: Analista do setor financeiro em uma agncia de publicidade 
ACUSAO: Era uma das operadoras do grupo de Valrio

HENRIQUE PIZZOLATO
O QUE FAZIA: Diretor de marketing do Banco do Brasil
O QUE FAZ HOJE: Aposentado 
ACUSAO: Recebeu propina para favorecer uma agncia de Marcos Valrio na execuo de contratos com o BB

JACINTO LAMAS
O QUE FAZIA: Tesoureiro do PL at fevereiro de 2005 
O QUE FAZ HOJE: Funcionrio da Cmara 
ACUSAO: Ligado a Valdemar Costa Neto, intermediou parte dos repasses ao PL

JOO CLAUDIO GENU
O QUE FAZIA: Assessor do ento deputado Jos Janene 
O QUE FAZ HOJE: Abriu empresa de gesto empresarial e consultona imobiliria 
ACUSAO: Foi intermedirio do valerioduto para o PP

JOO MAGNO
O QUE FAZIA: Deputado (PT-MG) 
O QUE FAZ HOJE: Scio de uma consultoria poltica 
ACUSAO: Recebeu 360.000 reais do valerioduto e ocultou a transao valendo-se de um assessor e de seu tesoureiro

JOS BORBA
O QUE FAZIA: Lder do PMDB na Cmara dos Deputados 
O QUE FAZ HOJE: Prefeito de Jandaia do Sul (PR)
ACUSAO: Recebeu propina para votar a favor de matrias de interesse do governo

PEDRO CORRA
O QUE FAZIA: Deputado (PP-PE) e presidente do partido 
O QUE FAZ HOJE: Integra a direo nacional do PP 
ACUSAO: Recebeu propina em troca de apoio ao governo e lavou o dinheiro

PEDRO HENRY
O QUE FAZIA: Deputado federal (PP-MT) e lder do partido na Cmara em 2003 e 2004 
O QUE FAZ HOJE: Deputado federal (PP-MT) 
ACUSAO: Recebeu propina em troca de apoio ao governo

PROFESSOR LUIZINHO
O QUE FAZIA: Deputado (PT-SP) e lder do governo de abril de 2004 a maro de 2005
O QUE FAZ HOJE: Consultor
ACUSAO: Recebeu 20.000 reais do valerioduto e ocultou a origem do dinheiro

RAMON HOLLERBACH
O QUE FAZIA: Empresrio 
O QUE FAZ HOJE: Consultor 
ACUSAO: Scio de Valrio, ajudou a mascarar o destino dos recursos. Tambm ordenou a doleiros os pagamentos a Duda Mendona no exterior

ROGRIO TOLENTINO
O QUE FAZIA: Advogado 
O QUE FAZ HOJE: Advogado 
ACUSAO: Era um dos principais elos entre o ncleo operacional da quadrilha e o Banco Rural. Era o brao direito de Marcos Valrio

JOS JANENE
O QUE FAZIA: Deputado (PP-PR) 
O QUE FAZ HOJE: Faleceu em setembro de 2010 
ACUSACO: Como lder da bancada, fechou acordo com o PT, assumindo postura ativa no recebimento de propina

JOS LUIZ ALVES
O QUE FAZIA: Chefe de gabinete de Anderson Adauto 
O QUE FAZ HOJE: Diretor de empresa de saneamento ligada  prefeitura de Uberaba (MG) 
ACUSAO: Recebeu 600.000 reais em nome de Adauto

JOS ROBERT SALGADO
O QUE FAZIA: Executivo do Banco Rural
O QUE FAZ HOJE:  do conselho de administrao do Rural 
ACUSAO: Autorizou e renovou emprstimos fraudulentos para Valrio

KTIA RABELLO
O QUE FAZIA: Presidente do Banco Rural 
O QUE FAZ HOJE:  uma das administradoras da holding do Rural 
ACUSAO: O banco foi o brao financeiro do mensalo

PAULO ROCHA
O QUE FAZIA: Lder do PT na Cmara dos Deputados entre fevereiro e agosto de 2005 
O QUE FAZ HOJE: Presidente de honra do PT no Par 
ACUSAO: Recebeu 820.000 reais do valerioduto

ROMEU QUEIROZ
O QUE FAZIA: Deputado (PTB-MG) 
O QUE FAZ HOJE: Deputado estadual do PSB-MG 
ACUSAO: Pegou propina para o PTB e para si prprio e ocultou a origem do dinheiro

SILVIO PEREIRA
O QUE FAZIA: Dirigente do PT 
O QUE FAZ HOJE: Empresrio 
ACUSAO: Coordenava a distribuio de cargos no governo. Ganhou um Land Rover de fornecedora da Petrobras. Fez acordo e no  mais ru

SIMONE VASCONCELOS
O QUE FAZIA: Diretora administrativa e financeira da SMP&B 
O QUE FAZ HOJE: Trabalha em locadora de veculos da famlia 
ACUSAO: Era operadora de Valrio

VINCIUS SAMARANE 
O QUE FAZIA: Diretor do Rural 
O QUE FAZ HOJE: Vice-presidente do Banco Rural 
ACUSAO: Ajudou a omitir do sistema de informaes do BC o nome dos beneficirios dos recursos do mensalo

ZILMAR FERNANDES
O QUE FAZIA: Scia do publicitrio Duda Mendona
O QUE FAZ HOJE: Trabalha com Duda
ACUSAO: Recebeu pagamentos pelo esquema de lavagem de dinheiro de Valrio


3. DVIDAS ENTRE OS JUZES
O mais importante julgamento da histria do Supremo Tribunal Federal comea na prxima quinta-feira com a incerteza sobre a participao de dois ministros.
RODRIGO RANGEL

     A sesso histrica que vai julgar os rus do mensalo ser aberta na prxima quinta-feira com a presena dos onze magistrados que compem o Supremo Tribunal Federal. Duas incertezas, porm, ainda pairam na Corte: a primeira  sobre o ministro Cezar Peluso. Um dos mais experientes juzes, o ministro completa 70 anos no dia 3 de setembro e ser obrigado, por lei, a se aposentar. Como  pouco provvel que o julgamento termine antes dessa data, existe a hiptese de que Peluso antecipe seu veredicto. Se isso acontecer, a defesa dos rus planeja pedir a anulao do voto o que certamente provocar um acalorado debate. Os advogados acreditam que Peluso, conhecido pelo rigor em matria penal, se alinhar  tese da acusao. A segunda e mais polmica incerteza envolve a participao do ministro Jos Antonio Dias Toffoli. Ex-advogado do PT, ex-assessor de Jos Dirceu, ex-integrante do governo que inventou o mensalo, ex-scio do escritrio que defendeu trs mensaleiros e at hoje amigo de alguns dos mais destacados rus do processo, Toffoli ainda no confirmou se vai ou no atuar no julgamento. O ministro tem o direito de se declarar suspeito, uma deciso de carter subjetivo, mas existe tambm a possibilidade de a Procuradoria-Geral da Repblica requerer seu impedimento legal.
     A presena de Dias Toffoli entre os julgadores do processo tem sido questionada  inclusive por alguns de seus pares , mas ele j disse a amigos que no v razo para ficar de fora. O ministro atuou diretamente como advogado do principal ru do mensalo, o ex-chefe da Casa Civil Jos Dirceu, como mostra a procurao acima. Na ocasio (o ano  2000), Dirceu era deputado e Toffoli foi encarregado por ele de mover uma ao popular contra a privatizao do Banespa. A procurao concedia poderes legais a Dias Toffoli e a seu ex-scio, o tambm advogado Lus Maximiliano Telesca Mota, para atuar no processo em nome de Dirceu. Por uma dessas reviravoltas da vida, Jos Dirceu hoje  ru, Lus Maximiliano  um dos advogados de defesa no mensalo e Toffoli um dos responsveis pelo julgamento que interessa a ambos. A procurao que une os trs, por si s, no  suficiente para caracterizar a suspeio, muito menos o impedimento do ministro, mas revela os primrdios de uma relao que foi se estreitando com o passar dos anos.
     Jos Antonio Dias Toffoli construiu sua carreira jurdica na mquina do PT. Logo aps se formar em direito, foi consultor da Central nica dos Trabalhadores (CUT). Como advogado, trabalhou para polticos petistas at ser nomeado, em 1995, assessor da liderana do partido na Cmara dos Deputados. Com a eleio de Lula, foi trabalhar no Palcio do Planalto, mais precisamente na assessoria jurdica do ento ministro Jos Dirceu. Depois do escndalo do mensalo, Toffoli assumiu a Advocacia-Geral da Unio. Essa trajetria to ligada ao partido e ao poder dificilmente passaria ao largo dos acontecimentos que desaguaram no escndalo. H outras conexes importantes que unem o julgador e os rus.
     At ser indicado para o STF em 2009, Toffoli mantinha um escritrio em sociedade com sua atual companheira, Roberta Rangel. Nesse perodo, a advogada foi contratada por trs mensaleiros. Defendeu Jos Dirceu numa ao em que ele tentou barrar no Supremo a cassao de seu mandato. E, no prprio processo do mensalo, defendeu os ex-deputados petistas Paulo Rocha e Professor Luizinho, acusados de receber o dinheiro sujo do esquema. Ou seja, o ministro Dias Toffoli, caso no se considere suspeito, vai julgar o processo que j teve sua atual companheira como advogada dos rus, no perodo em que ele mesmo, Toffoli, era scio dela no escritrio. A imparcialidade do julgamento passa necessariamente pela definio do ministro em relao a sua participao, avalia Alexandre Camanho, presidente da Associao Nacional dos Procuradores da Repblica.
     Por lei, juzes de quaisquer instncias so impedidos de julgar uma causa quando forem parentes ou cnjuges de advogados de alguma das partes. Nesse caso, o impedimento  imperativo. Dias Toffoli argumenta que  apenas namorado de Roberta Rangel  muito embora, nas cerimnias oficiais do prprio Supremo, a advogada desfile solenemente pelos espaos reservados aos cnjuges dos ministros. H, ainda, o outro dispositivo legal, o da suspeio, capaz de orientar o ministro em sua deciso de participar ou no do julgamento. Diz a lei que o juiz  suspeito quando tiver amigo ntimo entre os envolvidos no processo, quando alguma das partes for sua credora ou devedora, quando receber ddivas dos envolvidos antes ou depois de iniciada a causa ou mesmo quando tiver interesse no julgamento em favor de algum dos lados. Diz o jurista Luiz Flvio Gomes: O juridicamente correto, o moralmente correto e o eticamente correto seria ele se afastar. 

O CALENDRIO DO JULGAMENTO
O Supremo vai decidir o destino dos 38 acusados de envolvimento no mensalo, o caso mais importante da histria da corte. O julgamento deve durar ao menos um ms e ter o desfecho perto das eleies.

Crimes pelos quais sero julgados
CA: Corrupo ativa
CP: Corrupo passiva
E: Evaso de divisas
G: Gesto fraudulenta
L: Lavagem de dinheiro
P: Peculato
Q: Formao de quadrilha

AGOSTO
QUINTA 2
Incio do julgamento
O relator, Joaquim Barbosa, resume o caso. Roberto Gurgel, procurador-geral da Repblica, faz a acusao.

SEXTA 3
Sustentaes orais
Defesa dos 38 rus. Cada advogado ter uma hora
Jos Dirceu CA, Q
Jos Genoino Q, CA
Delbio Soares Q, CA
Marcos Valrio Q, P, L, CA, E
Ramon Hollerbach Q, CA, L, P, E

SEGUNDA 6
Sustentaes orais
Cristiano de Mello Paz Q, CA, L, P, E
Rogrio Tolentino Q, CA, L
Simone de Vasconcelos Q, CA, L, E
Geiza dos Santos Q, CA, L, E
Ktia Rabello Q, L, E, G

TERA 7
Sustentaes orais
Jos Roberto Salgado Q, L, G, E
Vinicius Samarane Q, L, G, E
Ayanna Tenrio de Jesus Q, L, G
Joo P. Cunha CP, L, P
Luiz Gushiken P

QUARTA 8
Sustentaes orais
Henrique Pizzolato CP, L, P
Pedro Corra CP, L, Q
Pedro Henry CP, L, Q
Joo Claudio Genu Q, CP, L
Enivaldo Quadrad0o Q, L

QUINTA 9
Sustentaes orais
Breno Fischberg Q, L
Carlos Alberto Quaglia Q, L
Valdemar Costa Neto CP, L, Q
Jacinto Lamas CP, L, Q
Antonio Lamas L, Q

SEXTA 10
Sustentaes orais
Bispo Rodrigues CP, L
Roberto Jefferson CP, L
Emerson Palmieri CP, L
Romeu Queiroz CP, L
Jos Borba CP, L

SEGUNDA 13
Sustentaes orais
Paulo Rocha L
Anita Leocdia L
Professor Luizinho L
Joo Magno L
Anderson Adauto CA, L

TERA 14
Sustentaes orais
Jos Luiz Alves L
Duda Mendona L, E
Zilmar Fernandes Silveira L, E
At aqui, o cronograma  o oficial do STF, passvel de mudanas em razo de detalhes tcnicos. A partir do dia 14, o calendrio se baseia em projees.

SEGUNDA 20
Leitura do voto do relator
A partir deste dia, as sesses ocorrero s segundas, quartas e quintas-feiras. Joaquim Barbosa apresenta seu voto

QUARTA 22
Leitura do voto do relator

QUINTA 23
Leitura do voto do relator

SEGUNDA 27
Leitura do voto do relator

QUARTA 20
Leitura do voto do revisor
O revisor do caso, ministro Ricardo Lewandowski, comea a leitura de seu voto

QUINTA 30
Leitura do voto do revisor

SETEMBRO
Do dia 3 at o trmino do julgamento, estimado para o fim do ms.
Os demais ministros apresentaro seus votos nesta ordem, dos mais recentes aos mais antigos no cargo: Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli, Crmen Lcia, Cezar Peluso, Gilmar Mendes, Marco Aurlio e Celso de Mello. O presidente do STF, Carlos Ayres Britto, vota por ltimo.


4. GOD E SEUS DISCPULOS
Autor da tese do caixa dois para justificar o mensalo, o ex-ministro Mrcio Thomaz Bastos agora  o comandante dos advogados dos principais rus do escndalo
OTVIO CABRAL E LAURA DINIZ

     Os banhos do advogado Mrcio Thomaz Bastos tm sido mais demorados nos ltimos dias.  embaixo do chuveiro que ele ensaia a defesa que apresentar no plenrio do Supremo Tribunal Federal. Seu cliente  Jos Roberto Salgado, um dos 38 rus do mensalo. Mas a participao de Thomaz Bastos no julgamento do mensalo vai muito alm dele. De longe o mais ilustre dos advogados que atuaro no caso, o ex-ministro da Justia do governo Lula  padrinho de cinco dos onze ministros que participaro do jri, uma vez que avalizou suas indicaes nos anos em que esteve  frente da pasta. Alm disso, designou ao menos dez advogados, todos seus discpulos, para trabalhar para os mensaleiros. Por fim, foi tambm ele o autor da estratgia de defesa urdida quando do estouro do escndalo, em 2005, e que pretendeu reduzir o crime a um simples caso de caixa dois. A estratgia, crucial para que Lula no fosse implicado no escndalo e corresse o risco de impeachment, vem sendo sustentada at hoje. O julgamento a colocar  prova. Chamado de God (Deus, em ingls) pelos colegas, Thomaz Bastos atuar dentro e fora do tribunal, articulando as estratgias dos colegas, avaliando a disposio dos ministros e informando as tendncias de condenao ou absolvio a Lula e  presidente Dilma Rousseff.
     Thomaz Bastos  a estrela mais reluzente do julgamento, mas no a nica. H outro ex-ministro da Justia (Jos Carlos Dias), um ex-presidente da OAB-SP (Antonio Cludio Mariz de Oliveira), o principal advogado de Braslia (Antonio Carlos de Almeida Castro) e uma estrela da nova gerao (Jos Luis de Oliveira Lima). Todos tm ligao profissional e pessoal com Thomaz Bastos. Especula-se que, juntos, os decanos recebero mais de 20 milhes de reais em honorrios. No ltimo ms, eles se reuniram pelo menos trs vezes para combinar os principais movimentos da defesa. H duas linhas conjuntas de ao. A primeira  postergar o julgamento ao mximo, a fim de evitar o voto de Cezar Peluso, que se aposenta em 3 de setembro. Sem ele, os advogados afirmam que precisaro de apenas cinco votos para absolver seus clientes, um a menos do que se o qurum estiver completo. Alm disso, suspeitam que Peluso se inclina pela condenao da maioria dos rus. O segundo movimento ser o de restringir a defesa a questes tcnicas, sem entrar em polmicas polticas. No h prova de autoria nem de materialidade. Ningum pode ser condenado pelo que , mas pelo que fez, afirma o ex-ministro.
     Logo no incio do julgamento, Thomaz Bastos far sua primeira interveno. Apresentar uma questo de ordem pedindo o desmembramento do processo. Para ele, apenas os rus com mandato devem ser julgados pelo STF  os demais casos deveriam ser remetidos para a primeira instncia. Ele mesmo desconfia que o pedido ser negado, j que o Supremo se manifestou duas vezes nesse sentido. Mas ser a primeira iniciativa para retardar o julgamento  outras podem ocorrer ao longo das sesses, como a tentativa de impedir que Peluso antecipe seu voto.
     No ano passado, em viagem a Paris, Thomaz Bastos comprou uma toga nova, por 500 euros. Mas decidiu deix-la no armrio e usar sua toga da sorte, de mais de trinta anos. A veste o acompanhou, por exemplo, no julgamento do cantor Lindomar Castilho, em 1984. Castilho matou a mulher, Eliane de Grammont, com um tiro. Thomaz Bastos, assistente da acusao, conseguiu fazer com que ele fosse condenado a doze anos de priso.
     Quando o julgamento acabar, o advogado far um road show por editoras para definir qual lanar suas memrias que vm sendo escritas com a ajuda de um jornalista e trs pesquisadores. O livro ser dividido em quatro temas: uma autobiografia, a sua passagem pelo ministrio, a presidncia da OAB e a retomada da advocacia. Nesse ltimo captulo, ele contar a histria oficial do mensalo. J a histria real, aquela vivida dentro do governo, poucos dos que a acompanharam podero ler. Nos quatro anos de ministrio, o advogado manteve um dirio, que atualizava religiosamente antes de dormir. Os cinco volumes que resultaram desse trabalho esto no cofre de um banco. E sero divulgados apenas cinquenta anos aps a sua morte. 

MRCIO THOMAZ BASTOS
Chamado de God pelos colegas, o ex-ministro da Justia e principal criminalista do Brasil  o mentor dos principais advogados que participaro do julgamento do mensalo.

ARNALDO MALHEIROS 
Advogado de Delbio Soares. Fundou com Thomaz Bastos o Instituto de Defesa do Direito de Defesa e advogou com ele para a Camargo Corra na Operao Castelo de Areia

LUIZ FERNANDO PACHECO 
Defensor do ex-presidente do PT Jos Genoino. Iniciou a carreira como estagirio de Thomaz Bastos e chegou a ser scio de seu escritrio

ALBERTO TORON 
Advogado do deputado Joo Paulo Cunha. Comeou a carreira como estagirio de Thomaz Bastos.  o seu candidato  presidncia da OAB-SP

PIERPAOLO BOTTINI
Responsvel pela defesa do ex-deputado Professor Luizinho. Foi secretrio de Reforma do Judicirio na gesto de Thomaz Bastos no Ministrio da Justia

JOS LUIS DE OLIVEIRA LIMA 
Advogado do ex-ministro Jos Dirceu.  parceiro de Thomaz Bastos na defesa do mdico Roger Abdelmassih, acusado de abuso sexual de pacientes

ANTONIO CARLOS DE ALMEIDA CASTRO
Defensor do publicitrio Duda Mendona. Foi representante do escritrio de Thomaz Bastos em Braslia

MARCELO LEONARDO 
Advogado do publicitrio Marcos Valrio. Atuou como conselheiro da OAB nacional quando Thomaz Bastos presidia a entidade
     

5. DO PALCIO PARA A CADEIA
Por que Washington, a capital que os americanos amam odiar, nunca foi tomada de assalto por uma organizao criminosa  e, se tivesse sido, a quadrilha de mensaleiros teria recebido punio exemplar.
ANDR PETRY, de NOVA YORK

     Larry Seabrook tem 61 anos e viveu as ltimas trs dcadas como estrela na poltica de Nova York. Foi deputado, senador estadual e vereador eleito pelo Bronx. Agora, depois de ser apanhado desviando milhares de dlares de dinheiro pblico atravs de uma fundao, passar a velhice na cadeia. No julgamento realizado na semana passada, a defesa de Seabrook no contestou a existncia da rede de corrupo. A tese dos seus advogados  que Seabrook no sabia de nada. Familiar? Era o chefe, contratou todos os envolvidos, mas no sabia de nada. No colou. O caso de Seabrook, que demorou dois anos do comeo da investigao  sentena da semana passada, no tem nada de especial. Ele  apenas o mais recente poltico corrupto a ser mandado para a cadeia  mas  exatamente por isso, por ser apenas mais um caso entre vrios, que sua condenao tem valor pedaggico.
     A repetida punio de corruptos que atuam nos nveis inferiores da poltica  nas prefeituras e cmaras de vereadores, nas assembleias e governos estaduais   o anteparo que preserva Washington, a capital federal, do cotidiano de escndalos de corrupo. Como as instituies estaduais e municipais funcionam e a vigilncia  incessante,  mais difcil que ladres, mensaleiros e criminosos diversos consigam chegar ao Congresso americano. Quando chegam, o brao da lei revela-se longo. Na dcada passada, no governo de Bush filho, o clebre lobista Jack Abramoff pintou e bordou em Washington, subornando polticos e servidores pblicos para atender aos interesses de seus cientes. O escndalo derrubou o lder da maioria republicana, o poderoso Tom DeLay, que recebia mimos variados do lobista, entre eles uma viagem  Esccia para jogar golfe. O caso terminou com dezenove encarcerados: oito trabalhavam no governo e onze, no Congresso. No ano passado, DeLay foi finalmente julgado. Pegou trs anos de cadeia. Est apelando em liberdade.
     Para um brasileiro,  mais difcil encontrar um governador na cadeia do que o bson de Higgs. Nos Estados Unidos, neste momento, h dois ex-governadores em cana  ambos de Illinois. Na economia americana, Illinois tem importncia equivalente  do Paran no Brasil, mas na crnica da corrupo poltica vale por duas Alagoas. Um dos ex-governadores presos  Rod Blagojevich, o Blago. Monitorado por escutas telefnicas do FBI, ele foi apanhado achacando meio mundo e leiloando a cadeira de senador antes ocupada pelo presidente Barack Obama. O outro  George Ryan, antecessor de Blago. Condenado por suborno, trfico de influncia e desvio de dinheiro de campanha, pegou seis anos e meio. Sair da priso em julho de 2013, aos 79 anos. Em Illinois, a mdia  de um governador na priso por dcada. Como a corrupo parece no recuar, o juiz do caso de Blago resolveu dar-lhe uma sentena dura, para servir de exemplo aos polticos do estado: catorze anos de priso. Por isso, os Blagos da poltica penam para chegar a Washington.
     Nos ltimos dois anos, houve mais de vinte casos de corrupo que alcanaram alguma repercusso nacional envolvendo ocupantes de cargos pblicos  todos terminaram em priso. Na ltima dcada, foram quase noventa. Parece muito, mas  uma impresso comum apenas para os que no esto habituados a ver gatos gordos e ratos magros na cadeia. Nessa massa, h prefeitos, deputados estaduais e vereadores, e servidores pblicos que ocupam cargos no eletivos. Quando o corrupto tem um cargo de prestgio, as sentenas costumam ser pesadas. Salvatore DiMasi ocupava a presidncia da Assembleia de Massachusetts, posto de enorme destaque. Embolsou 65.000 dlares para favorecer uma empresa de software. Foi condenado a oito anos de cadeia. Sua vida virou um inferno. Na priso, descobriu-se com cncer na lngua e o banco penhorou o imvel onde ele e sua mulher moravam.
     A sucesso de casos de corrupo nos nveis estadual e municipal d aos americanos a sensao de viver num vulco de roubalheira. O jornalista Clyde Haberman, do The New York Times, escreveu uma coluna irnica dizendo que Nova York estava fazia muito tempo  sete semanas  sem uma acusao formal de corrupo, e a apareceu Larry Seabrook. Na alfinetada final, Haberman dizia que Nova York no corria o risco de esgotar o estoque de corruptos no banco dos rus porque Albany, capital do estado, jamais decepcionar. O veterano jornalista s no sabe o que  um mundo ao contrrio, aquele em que polticos nunca se sentam no banco dos rus. Ou, quando se sentam, logo se levantam livres, leves e soltos.

ROD BLAGOJEVICH 
ACUSAO: Como governador de Illinois, extorquia empresrios e chegou a leiloar a cadeira de senador antes ocupada por Barack Obama
PENA: Catorze anos de priso

CARL KRUGER 
ACUSAO: Embolsar cerca de 1 milho de dlares para defender interesses de empresrios quando era senador no estado de Nova York 
PENA: Sete anos de cadeia

DON SIEGELMAN 
ACUSAO: Receber 500.000 dlares para sua campanha ao governo do Alabama e, eleito, nomear o doador para um cargo no governo 
PENA: Sete anos de priso

GEORGE RYAN 
ACUSAO: Aceitar suborno e fazer trfico de influncia como governador de Illinois 
PENA: Seis anos e meio de priso. Em julho de 2013, ter cumprido toda a pena

JOHN ROWLAND 
ACUSAO: Como governador de Connecticut, favorecia empreiteiras que faziam obras de graa em sua casa de campo 
PENA: Dez meses de cadeia e quatro de priso domiciliar

KEN ARD 
ACUSAO: Desviar dinheiro da campanha para vice-governador da Carolina do Sul 
PENA: Cinco anos sob vigilncia, multa de 5000 dlares e 300 horas de servio comunitrio

LARRY SEABROOK 
ACUSAO: Como vereador de Nova York, desviava dinheiro pblico para si mesmo e para amigos, por meio de uma fundao 
PENA: Foi condenado, mas a pena ainda no foi definida

PEDRO ESPADA 
ACUSAO: Como senador estadual de Nova York, desviava dinheiro de clnicas financiadas pelo governo 
PENA: Foi condenado, mas aguarda a fixao da pena

RICHARD MIRANDA 
ACUSAO: Embolsar 230.000 dlares de uma entidade agrcola no Arizona quando cumpria mandato de deputado 
PENA: Vinte e sete meses de priso e multa de 230.000

SALVATORE DIMASI 
ACUSAO: Receber 65.000 dlares, como deputado em Massachusetts, para favorecer uma empresa de software 
PENA: Oito anos de priso e multa de 65.000 dlares

TERRY SPICER 
ACUSAO: Como deputado no Alabama, aceitou dinheiro e favores para atender aos interesses de um lobista 
PENA: Quatro anos e nove meses de priso


6. CANDIDATO ENROLADO
O petista Patrus Ananias pode ter sua candidatura  prefeitura de Belo Horizonte impugnada por no ter se afastado de cargo pblico. A suspeita  que ele tenha falsificado um documento para tentar encobrir o erro.
OTVIO CABRAL

     A disputa pela prefeitura de Belo Horizonte se tornou a prioridade eleitoral da presidente Dilma Rousseff. Enxerga-se ali uma prvia da eleio presidencial de 2014, com Dilma de um lado e, do outro, o senador mineiro Acio Neves. Antes de ser elevado ao patamar federal, o confronto mineiro era tido como uma das maiores barbadas da atual temporada eleitoral. Apoiado at mesmo pelos arquirrivais PT e PSDB, o prefeito Marcio Lacerda, do PSB, tinha a reeleio praticamente garantida, sem adversrios competitivos com quem se preocupar. H um ms, uma reviravolta tornou a disputa imprevisvel. Por no ter como explicar sua presena em um provvel palanque presidencial de Acio Neves, o PT de Minas Gerais rompeu com Lacerda e lanou a candidatura de Patrus Ananias. Ministro do Desenvolvimento Social do governo Lula, responsvel pelo sucesso do Bolsa Famlia e ex-prefeito da cidade, Patrus tem fora poltica, que esperava potencializar com a projeo de uma imagem de austeridade e humildade, com a qual poderia contrastar a percepo de sujeira e ambies materiais que domina a poltica. H duas semanas, porm, ocorreu outra reviravolta capaz de demolir a imagem monstica de Patrus e, se a Justia Eleitoral acatar a representao dos adversrios, at mesmo provocar a impugnao de sua candidatura.
     Denncia apresentada pelo PSD de Minas Gerais  Justia Eleitoral mostra que Patrus no se afastou no prazo legal do cargo de presidente do Conselho Superior de Responsabilidade Social da Federao das Indstrias do Estado de So Paulo, a Fiesp. Entidade receptora de verbas pblicas, a Fiesp, pela tica da legislao eleitoral,  um rgo pblico. Por isso, Patrus deveria ter deixado seu cargo quatro meses antes da eleio  ou, no mximo, at 7 de junho passado. Segundo a denncia do PSD, ele presidiu o conselho na Fiesp at, pelo menos, 5 de julho  portanto, fora do prazo legal exigido pela lei eleitoral. Naquela data, diz a denncia do PSD, Patrus comandou a reunio mensal do rgo. Confrontado pela Justia Eleitoral, ele afirmou inicialmente que no se lembrava da data de seu desligamento da entidade patronal paulista. No soube dizer se saiu em junho ou julho. Alegou tambm desconhecer o fato de que seu afastamento do cargo na Fiesp fosse necessrio. Mais tarde, porm, deu como certo que sara da Fiesp em 2 de junho. Os adversrios de Patrus consideram as alegaes suspeitas  a comear pela data oficial do desligamento, um sbado, dia em que no h expediente na Fiesp. Em seu blog, criado em 13 de junho passado, Patrus se apresenta como presidente do conselho da Fiesp. Depois da denncia, ele apagou a meno do blog. Suspeito. Em 2 de junho a candidatara Patrus nem sequer era cogitada. Naquela data, a aliana entre PT e PSB parecia inabalvel. A quebra da coligao passou a ser vislumbrada no fim de junho, quando, ento, pela primeira vez, o nome de Patrus Ananias foi aventado como candidato prprio do PT  prefeitura de Belo Horizonte. S se ele tivesse bola de cristal para sair da Fiesp um ms antes de sua candidatura ser cogitada, ironiza o deputado Alexandre Silveira, do PSD.
     Patrus vai ter dificuldade para explicar esse incidente  simples na aparncia, mas com enormes repercusses em virtude da lei eleitoral e do potencial de desmonte da imagem de candidato simplrio, desapegado do dinheiro. O cargo na Fiesp  bem remunerado  algo em torno de 10.000 reais. Alm dessa fonte de renda, Patrus  dono da empresa Ananias Consultoria e Assessoria Limitada. Outro rgo pblico, o Sebrae, pagou, por uma palestra em abril deste ano, 5000 reais a Patrus por meio de sua empresa de consultoria. A Justia Eleitoral quer conhecer a lista de clientes da empresa de consultoria do candidato do PT, pois a presena de rgos pblicos entre eles a partir de 7 de junho  condio suficiente para o pedido de impugnao da candidatura. Procurado por VEJA, Patrus no se manifestou. Em conversas com aliados, tem culpado a briga interna do PSD pela denncia. O presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, fez uma interveno na seo mineira para obrigar o apoio a Patrus. Mas o comando regional do PSD reagiu, anulou a interveno na Justia e aliou-se a Marcio Lacerda. Quando deixou o governo, Patrus Ananias chamou a imprensa para documentar um ato que parecia exemplar: sua volta  salinha modesta de tcnico de pesquisas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Posso dizer a esta altura da minha vida, com muita humildade, que o poder e o dinheiro no me compram, afirmou ele na oportunidade. A luz de suas funes remuneradas na Fiesp, a federao dos patres da indstria de So Paulo, e da condio de empresrio do ramo de consultoria, esse voto de pobreza de Patrus soa altamente demaggico.


7. ERA MESMO UM BALCO
Ficou demonstrado que Erenice Guerra usou a Casa Civil como um balco de negcios. Mas, apesar disso, a Procuradoria no viu crime. O filho da ex-ministra e os scios sero agora investigados por lavagem de dinheiro.
GUSTAVO RIBEIRO

     No organograma do poder, o cargo mais importante depois da Presidncia da Repblica  o de ministro-chefe da Casa Civil.  ele quem acompanha os projetos mais relevantes do governo, como as bilionrias obras do Programa de Acelerao do Crescimento, cobra resultados dos demais ministros e influi na indicao de pessoas para cargos de confiana. No governo Lula, Jose Dirceu foi o primeiro a ocupar o posto. Era to poderoso que alimentava a fama de ser o presidente de fato. Aspirava a subir a rampa do Palcio do Planalto como sucessor do chefe, projeto interrompido pelo escndalo do mensalo. Depois dele, veio Dilma Rousseff, que deixou o cargo para se candidatar a presidente. No lugar dela, assumiu Erenice Guerra, que no tinha pretenses polticas mas escondia outras ambies. Durante os anos em que esteve no gabinete mais cobiado da Esplanada dos Ministrios, primeiro como secretria executiva e depois como ministra, ela montou um balco de negcios. Em setembro de 2010, VEJA revelou histrias de traficncias no governo envolvendo a ex-ministra e sua famlia. As denncias lhe custaram o cargo e um rol de investigaes por parte da Polcia Federal: 
 Israel Guerra, um dos filhos de Erenice, vendia facilidades junto ao governo, usando a me como trunfo. Em sociedade com um ex-funcionrio da Casa Civil e um servidor da Agencia Nacional de Aviao Civil (Anac), o rapaz fundou a Capital Assessoria e Consultoria  uma empresa registrada em nome de laranjas. Israel e seus scios intermediavam reunies entre Erenice e empresrios e cobravam uma taxa de sucesso de 6% do valor dos contratos atendidos. De uma equipe de motociclismo, a Capital chegou a cobrar 40.000 reais para intermediar um acordo de patrocnio estatal.
 Erenice favoreceu em vrias frentes um dos principais clientes da Capital, a MTA Linhas Areas. Em 2009, a empresa pagou 120.000 reais para agilizar a liberao de sua licena de voo. Depois de contratar os servios de Israel Guerra, a MTA dobrou seu faturamento junto aos Correios em um perodo de apenas dois meses. Em outra demonstrao de poder, a ministra indicou para uma diretoria dos Correios o prprio dono da MTA. 
 Por presso da ex-ministra, a Anatel contrariou suas normas operacionais e homologou uma concesso para que a Unicel  companhia da qual seu marido era diretor comercial  pudesse vender linhas de celular no estado de So Paulo.
 Quando era secretria executiva da Casa Civil, Erenice atuou tambm como lobista da Matra Minerao, cujo dono era seu marido. Conseguiu livrar a Matra de catorze multas cobradas pelo Departamento Nacional de Produo Mineral.
     Na semana passada, a Justia ordenou o arquivamento das investigaes. Prova de que Erenice, sua famlia e seus parceiros de negcios so vtimas do que a ex-ministra chamou de campanha para alimentar um clima de escndalos? Longe disso. O Ministrio Pblico e a Polcia Federal constataram que as denncias eram verdadeiras. Sim, a Capital intermediava contratos entre a iniciativa privada e o governo, usando Erenice como seu trunfo. Sim, a Capital estava em nome de laranjas. Sim, Erenice se aproveitou do cargo para beneficiar a mineradora do marido e a telefnica na qual ele trabalhava. Sim, os documentos oficiais que as empresas apresentaram ao governo saram de seu computador funcional. Sim, uma equipe de motociclismo teve de pagar uma taxa para ter seu patrocnio junto  Eletrobras aprovado. Sim, o dono da empresa de txi areo foi nomeado diretor dos Correios a mando da Casa Civil. Por que, ento, o Ministrio Pblico pediu para arquivar tudo? Apesar de a polcia ter confirmado os malfeitos da ex-ministra e de sua turma, a procuradora encarregada de atuar no caso, Luciana Marcelino, no viu a ocorrncia de crime. A procuradora no foi localizada para comentar ocaso. Com o MP sugerindo o arquivamento ao juiz responsvel pelo inqurito, Vallisney de Souza, no havia alternativa. Disse ele, com certa dose de resignao nas palavras: Segundo a lei, o juiz no pode indeferir o pedido de arquivamento e dar continuidade s investigaes. A impunidade, entretanto, pode ser apenas relativa. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) verificou que pelas contas bancrias da famlia Guerra e de seus scios passaram volumes de dinheiro incompatveis com os rendimentos declarados  Receita Federal. Diante da possvel prtica do crime de lavagem de dinheiro, a polcia vai abrir um novo inqurito. 

